quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Para muita gente, a expressão “bipolaridade”, ou “perturbação bipolar” é pouco familiar, mas se falarmos em perturbação maníaco-depressiva, todos saberão do que se trata. 
Seja através de filmes, séries, livros ou contacto pessoal, a perturbação bipolar é figura frequente no nosso imaginário coletiva ou mesmo experiência de vida, pode-se dizer que figura no elenco de “bichos-papões” associados à saúde mental. 
Na maioria das vezes, é vista e é como uma condição que condena quem dela sofre a um estado de quase-loucura equiparado apenas ao da esquizofrenia, que não tem tratamento e será uma eterna incapacidade, caracterizada por uma montanha-russa emocional – ora num estado de euforia quase imparável e insuportável para quem com ela lida, ora na mais profunda melancolia e depressão. 
A bipolaridade aparece associada ao olhar esgazeado de um pico positivo (episódio maníaco) capaz da maior generosidade, mas também de imprudência e até violência, assim como ao rápido declínio para o pico negativo, uma depressão tão profunda que frequentemente conduz ao suicídio. 
Ainda assim, não são poucas as descrições de grandes artistas e cientistas que eram bipolares, e cujos picos positivos lhes deram o “empurrão” para a fama e a glória. Na verdade, a perturbação bipolar não será tão monstruosa quanto as suas caracterizações mais pessimistas a pintaram, nem tão romântica e inócua quanto nos pode fazer crer a obra deixada por grandes homens e mulheres que dela padeceram.
Independente da avaliação de gravidade que se possa fazer dela, a perturbação bipolar tem consequências bem reais na vida de quem dela sofre. As relações com os outros podem tornar-se um grande pesadelo. As oscilações de humor conduzem ora a conflitos, ora a retração, causando que as pessoas queridas se afastem com frequencia por não compreenderem o que se passa com a pessoa e não conseguirem lidar com isso.
 Torna-se, também, difícil manter um emprego. Quando existe um pico, seja positivo seja negativo, a produtividade no local de trabalho sofre variações muito grandes, e a capacidade de tomar decisões fica grandemente afetada. 
Na da família, é frequente a confusão e o medo. A alegria inesperada tem potencial para gerar surpresa, bem como conflitos e decisões repentinas com consequências graves, assim como os picos negativos afastam os membros da família e lançam nuvens sobre o ambiente familiar, sendo que a alternância entre estes dois pólos pode ser uma combinação explosiva. 
E os picos positivos podem levar a gastos irresponsáveis, comportamentos sexuais de risco e situações de perigo para o próprio (pela ausência do medo), os picos negativos podem conduzir a estados depressivos profundos que, no limite, conduzem a tentativas de suicídio. A taxa de suicídio entre pessoas com perturbação bipolar, de acordo com as informações mais recentes, situa-se entre os 10 e os 15%.
O que a distingue, acima de tudo, o bipolar, é a presença de sintomas “maníacos”. Não sendo a mania uma palavra familiar, falamos aqui de algo muito diferente da “mania das limpezas”, da “mania de dizer mal” ou da “mania de embirrar”. Falamos de sintomas como uma disposição anormalmente expansiva, positiva ou irritável, da redução de necessidade de dormir, de um aumento desmedido e repentino da auto-estima, que frequentemente roça a grandiosidade, de picos de intolerância à crítica à frustração, de períodos de produtividade excessiva e inesperada, de um discurso “saltitante”, acelerado e pouco coerente, de distratibilidade aumentada, ou mesmo de comportamentos de risco como gastos excessivos, picos de promiscuidade sexual, ou a ausência de percepção de perigo.
 Durante um pico maníaco, sentimo-nos os reis do mundo, como se nada nos pudesse tocar. Durante um pico positivo, nem todos estes sintomas estarão presentes. Nem todos eles estarão facilmente evidentes, e igualmente intensos. Aquilo que sabemos é que estes se agrupam nesta perturbação, e é muito frequente alternarem com estados depressivos e com momentos de normalidade, em que tudo está como esteve antes de surgir a perturbação. Estes momentos podem variar na sua duração e no tempo que decorre entre cada um deles. É estar vulnerável a cada segundo.
Prazer, este é o meu diário. Eu sou uma Bipolar.